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segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Quando subia às árvores



Andavam sempre os quatro juntos. 
Ela, ele e dois amigos. 
Dois dos seus amigos estavam na conversa, a comentar uma música que ouviam no walkman. Um trouxera a cassete e o outro o Walkman. Falavam de uma banda nova, cujo vocalista tinha morrido recentemente. É diferente, tem um som diferente, não sei explicar, ouve, ouve e depois diz-me que achas - dizia um deles.
Era um dia de primavera, daqueles em que as tardes já aqueciam o quanto bastasse para o pátio da escola se encontrar cheio de camisolas amarfanhadas no chão. O chafariz era ponto obrigatório para quase todos naqueles minutos de liberdade controlada e os quatro já por ele haviam passado antes de se sentarem nos bancos espalhados pelo recinto.
 -Dá-me a mão! Disse ele, eles dois ficam aí entretidos.
Arrastou-a até atrás do pavilhão e juntos subiram uma oliveira.
- Quero mostrar-te uma coisa.- Tentou ele contextualizar
- Estás a ver? Daqui... daqui avistas todos os barcos que saem do rio em direcção a algures. Tal como falava hoje a nossa prof na aula de História. Como se fossem à descoberta de algo que não conhecem, mas que por alguma razão sentem que existe... 
- Algo como tu...

sábado, 1 de novembro de 2014

Partir


-Onde vais?
- [silêncio]
- Voltas?
- [sorriso]
- Não vais voltar pois não? , pensou ela
- Não irei voltar, pensou ele a sorrir

domingo, 21 de setembro de 2014

Ponte Milvio - Parte II




As coisas entretanto mudaram.
Os dias ficaram mais frios, e as pessoas agora sorriem menos, pelo menos é isso que me está a parecer.

Ele lembrava-se perfeitamente daquela tarde em que se sentaram a comer um gelado no muro em frente a esta igreja... 
Tinham acabado de fugir do grupo e foram até a um poste luminoso. Era aquele pensava ele...
Hoje, 4 anos depois, estava lá sozinho. 

O cadeado ainda lá estava. Naquele dia nunca chegou a ver o que ela tinha lá escrito, e hoje não sabia se o deveria fazer...
Tudo à sua volta lembrava-o, as músicas, a roupa, o cheiro da roupa, o cheiro dela, o cheiro dela com e sem roupa, os traços gentis da sua cara, os lábios, a boca, o sorriso, porra, aquele sorriso... 
Nunca dava uma luta como perdida. Tinha sempre que ter razão... E o gozo que a ele lhe dava em fazê-la ver que nem sempre as coisas eram como ela via...
Olhou em volta. Vagarosamente aproximava-se um casal na casa dos 50 anos, quem sabe, o mesmo casal de há 4 anos.
Mas agora estava ali apenas ele, sozinho. Abeirou-se do poste agora já meio tombado, e encontrou o cadeado.
- "Tua até ao dia em que me quiseres só pelo amanhã"




quinta-feira, 29 de maio de 2014

Dor tipo moínha

As noites nunca mais voltaram a ser os mesmas, e os dias agora tinham-se tornado noites. 

Acordou todo suado com o coração aos pulos.
Tinha sido outro pesadelo. 
Experimentar a sensação de queda de um precipício, mesmo que a sonhar, nunca é fácil!




Arrastou as pernas para fora da cama, sentou-se e levou as mãos a cara. Esfregou-a várias vezes, como se aquele gesto o fosse fazer acordar melhor...
Levantou-se, e foi até à janela.
Naquela manhã era o nevoeiro que reinava. Impunha a sua névoa negativa e preguiçosa, perante toda e qualquer vontade de mudar. 
Deu com mais um dia cinzento. Era típico.
A calçada da rua, húmida, e o corrimão impregnado de formações gotosas, ansiando por quem nele coloque a mão, e as escorra num fio breve de água corrida.
Ele queria mudar, queria voltar, mas aquela moínha cinzenta não ajudava nada. 
Deixa estar... afinal é só mais um dia cinzento.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Terra molhada

Pedalaram e pedalaram até chegar ao topo do monte.

O céu alternava os amarelos torrados, com os violetas da metamorfose azul empurrados por uma nuvem escura, que paulatinamente se aproximava.
Os chuviscos até que souberam bem naquela fase final. 
Estávamos a chegar ao cume e com a nuvem passada, ficou apenas um céu quase transparente de uma noite ainda clara. 
Via-se agora que as estrelas começavam a dar de si, bem antes de qualquer vestígio de uma lua cheia, crescente ou sequer minguante.
Sentámo-nos no penhasco, de pernas pendentes e pescoço esticado para trás. 
Olhos fechados, só nós dois e o cheiro a terra molhada.
Aquele cheiro a terra molhada... ainda te lembras?

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Cair em câmara lenta


Irás arrastar-te para fora de mim, de um modo tão pegado, que nem irei notar.
Tão pegado, quanto a calor dos dias quentes se arrasta sorrateiramente para as noites de verão

Em câmara lenta.
Será assim que logo à noite me vais deixar cair...
Gentilmente irás virar a tua cara e
será assim, gentilmente, que fugirás dos meus lábios.


segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Nascer do sol

Hoje vi o nascer do sol. Lá de cima, uma linha no horizonte. Leve, ténue e suave. Como tu um dia foste...

Até que com o passar do tempo me foste aquecendo e marcando, tal qual aquece e marca o sol, que suavemente vai trepando o céu e nos vai aquecendo, sem que ao certo nos consigamos aperceber do tal ponto de viragem.

O ponto em que começamos a sentir... o tal calor!


quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Pensamentos afogados

Todas as palavras certas, todos os movimentos compostos e todas as vontades soltas.
Ninguém sabia para onde íamos, iamo-nos afundar... pensava eu...


Quem diria um dia, que o certo seria estar assim afogado por ti. Afogado do teu ar e da tua presença...

Afoga-me nos teus pensamentos, agora, hoje e sempre!

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

O desconhecido



Quanto mais alto subimos na montanha mais nos apercebemos da enorme planicie que está para lá dos nossos olhos...

Basta subir 10 metros e avistamos 50 novos km´s que nunca pensámos que fossem existir...

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Erros


Errar.
Erradamente pensamos nós que estamos sós neste mundo. 
Um mundo impestadamente enriquecido de erros. Erros camuflados, erros contados, erros submissos, erros declarados e vangloriados. 
Tristes daqueles que nunca erraram. Malditos sejam aqueles que apenas vêm os erros dos demais!

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Imagens turvas



E foi assim numa noite como esta. Chuva miuda, ar húmido e pensamentos molhados. A água pingava de pequenos fios de cabelo desalinhado que tapavam a tua testa. 
Uma estipidez que me atesta, detesta e mais que isso fará de mim uma besta...

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Sozinho

Noutro dia, noutro ano, noutra época.

Era mais ou menos por ali que passavam, de mão dada, sorrisos fáceis e sonhos imperdiveis. Era mais ou menos assim. 
Hoje fica apenas o lugar e a lembrança dele. Hoje caminha por ali sozinho, sozinho de coração, como tinha ficado desde então. 
Nem ela nem a recordação. 
Tal qual o fumo de uma chaminé, que no horizonte se dissipa sem pressas e sem rigores, tudo se esfumaçou aos poucos e sem se aperceber que acontecia...


quinta-feira, 5 de abril de 2012

Quando as palavras faltam...




Parei o carro no sinal vermelho. O rádio lá ia passando uma música baixinho com um luctor que a espaços dava vida a uma noite amarga.
O carro estava ao centro das três faixas de rodagem e nenhum carro se chegava à frente...
O que eu não dava por um pretexto para poder olhar para o lado esquerdo, o da porta... Algo ou alguém, um outro mundo para onde me pudesse deslocar, quanto mais não fosse para tentar descortinar o que se passaria na vida do condutor que tinha parado ali mesmo ao meu lado
Estávamos só nós dois ali, em silêncio, iluminados pela caracteristica luz amarela dos candeeiros públicos, cada um com um rio de argumentos para atirar ao outro, mas sem saber bem como o fazer, ou como os colocar.

O sinal lá abriu. A paisagem foi-se desenrolando e a tensão foi desvanecendo à medida que eu ia fingindo que me preocupava com o trânsito ou com a escolha do destino até casa...

Eu estava atulhado, cheio e entupido, mas aposto que ela não estava melhor, porque é no silêncio que se dá voz aos pensamentos

sábado, 5 de novembro de 2011

O último beijo

Ele voltava agora a casa depois de uma última discussão bem acessa. A vontade era pouca, mas aquele ainda era o único lugar onde podia ficar.


Quando entrou dentro de casa, ela estava sentada, contra a parede, de vestido branco já borrado de tanta lágrima maquilhada. Tinha-o comprado naquela tarde. Já o andava a fisgar há algumas semanas e fora-o comprar naquela tarde à Baixa de Lisboa. Saiu a correr do trabalho e antes que ele estranhasse qualquer coisa, apanhou o metro e o barco tão depressa que corrigiu o atraso. Hoje a noite seria apenas para eles dois. A filha tinha ficado ao encargo dos avós e tinha tudo para ser uma grande noite - pensava ela.
Enquanto atravessava o Tejo só pensava em como seria a mulher mais feliz do mundo. Nas suas costas deixava Lisboa, que naquele dia ficava para trás devagar demais, tal era a sua ansia. O mar mantinha-se revolto, como vinha acontecento há já alguns dias, mas ao menos não chovia e por isso, aproveitou a viagem na parte exterior do barco a apreciar as gaivotas que acompanhavam quase sempre aquele percurso.


Descalça, de pernas entreabertas e decote desalinhado, sem o mínimo querer e sem saber o que sequer fazer. Riscava anarquicamente a parede em que se apoiava com um marcador que tinha à mão, da mesma maneira que ele a tinha marcado nos últimos 5 anos.
Tinham sido muitos anos, muitas brincadeiras, muitos bons momentos, e era apenas disso que ela se lembrava das coisas boas...

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O primeiro beijo

Tinham passado cerca de 6 anos desde a última vez que tinham estado juntos. 
A despedida foi forte. Na altura ambos sabiam que nada voltaria a ser como dantes e que cada um tomaria o seu rumo, com outras escolhas, outras decisões, outras relações...
Com o passar do tempo os contactos entre eles foram escasseando, e um simples perguntar de "olá, como estás", deixou de ter sentido.
Quando nada o faria esperar, numa representação da sua instituição, ele deu com de caras com ela. Estava agora com um ar mais maduro, mais seguro, mas mantinha o sorriso de miúda adolescente que tinha no primeiro dia em que se tinham cruzado.
Não deixaram escapar a oportunidade, e acabaram por combinar um café quando ela saisse mais logo.
A conversa acabou por se prolongar num bar discreto que havia na periferia da cidade.
As horas foram passando e nem a fome dava sinais de presença, tal a o sentimento de avidez de parte a parte.
Ele, há anos que se encontrava sozinho, e ela já mãe de uma filha, apresentava agora um discurso mais amargo, fruto de uma relação mal conseguida.  

Sairam dali a passo lento, e perderam-se a contemplar as sombras que iam caíndo tenazmente dos postes de iluminação.
Sombras de um amarelo torrado, espelhado nas poças de água dispersas pelo alcatrão da rua.
O vento já apertava, não em força mas em frio, e tempo depois, viram-se os dois a fazer concursos de chamines fumegantes oriundas da boca de cada um.
Ela, agora, fazia-o intencionalmente direccionada a ele, e assim que começou, fez-lhe lembrar todo o querer afogado há anos atrás.
Já não tinham idade para pensar nas consequências, no que tinha ficado para trás ou sequer no que seria o dia de amanhã.
Ela pôs-se em ligeiro bico de pés, ele curvou ligeiramente o pescoço e levou a sua mão, aberta, à nuca dela. Puxou-lhe o cabelo para trás, descobrindo toda a sua cara -a beleza continuara lá ao final destes anos todos, pensou ele.
Ele fechou os olhos e abeirou-se prudentemente dos lábios dela, que por alheios estes anos todos, só agora deram a perceber o quanto sempre foram macios.


quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Tudo ou nada



E foi assim, que sem mais nem menos que me apercebi que podia ter tido tudo.
Foi quando o tudo se acabou e eu acabei rodeado de nada, um nada vazio, frio e que corroi contra a parede branca até às profundezas do osso.

domingo, 2 de outubro de 2011

Escolhas erradas



Muitos foram os que se questionaram um dia, muitos continuam a ser os que me continuam a pôr em questão, e muitos serão certamente os que simplesmente não acreditarão, mas eu continuo sem me arrepender, porque de alguma forma, foi ao errar assim que cheguei até ti...

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A espera solitária



- O que fazes ai sozinha?

- Espero por alguém e por um dia... Por um dia em que alguém me deixe...

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Capas


Sim, porque às vezes o mais ponderado a fazer, é calar cá para dentro e encobrir por um quadro pintado de azul radiante, qui ça num azul aparentemente perfeito...