Naquela altura sabia que as memórias me iriam permitir continuar a viver.
Hoje que uso fralda, estou algaliado, como por uma sonda que vai do nariz até ao estômago e não me mexo na cama, contínuo a viver aquele fim-de-semana.
Lembro-me da sensação de liberdade, do cheiro do ar limpo e do calor ao pôr do sol.
Naquela altura arrancámos e não quisemos saber, sempre assim foi, de tal maneira que hoje se chegar a minha altura de arrancar, também não quero saber!
Vivi, fui livre, e isso hoje dá-me a serenidade de voltar a ser livre.
Era um domingo, frio, de sol aberto e céu azul declarado, tal qual o de hoje.
O almoço tinha sido cozido à portuguesa.
Acompanhava o meu pai a passos largos em direcção ao café. Apenas me fixava nas pernas dele e em como ele conseguia andar tão depressa enquanto eu tinha que dobrar, espera... triplicar o número de passos.
Chegámos ao café, pouco iluminado, mesas de aparite revestidas de uma capa de plástico e cada uma com o seu respectivo cinzeiro. Sujo, impregnado de cinzas até às bordas. O balcão era alto, de pedra escura. Lembro-me que não conseguia alcançar o cimo da pedra. Nesse dia tive direito a uma pastilha, Gorila, sabor a banana. Era um dia especial!
Dali até à paragem do 51 foi um instante. O meu pai picou o BUC dos dois lados e lá chegámos ao estádio. O meu primeiro estádio. O estádio do Restelo.
O ambiente era diferente, sentia-se festa, expectativa, alegria, tudo isso misturado numa confusão controlada. Fui apresentado como filho por duas ou três vezes, e a custo lá lhes ia apertando as mãos... Afinal de contas era o estádio que me chamava à atenção. Não gostava de ser obrigado a apertar a mão.
Lembro-me dos gritos da Claque, quer dizer, dos adeptos, não havia ali bem uma claque, puxavam todos do mesmo modo, com o mesmo fervor e paixão. Sentia-se que era verdadeira e saudável. Acima de tudo respeitosa. Era o Belenenses!
"Belém, Belém, Belém, Belém", Cantavam todos, e aos pouco eu fui cantando também. Ao meu lado dois velhos de boina resmungavam pelos seus, os azuis, até que surgiu o primeiro golo. O golo os Deles. Eles que hoje já há muito devem estar debaixo da terra, naquele dia saltaram que nem molas e abraçaram-se de alegria.
De seguida, embutidos naquela onda de felicidade, chamaram o senhor das queijadas. Sentaram-se, com calma, muita calma abriram a embalagem. Eu ao lado, cobiçava, (na altura pensava que disfarçadamente, hoje percebo que não enganava ninguém) até que ...
- "oh rapaz, toma lá uma"...
Eu olhei para o meu pai, e ele acenou - "Diz obrigado"
- "Obrigado"
Foi a melhor queijada que comi até hoje.
Foi o melhor jogo que vi até hoje. Aquele sentimento de domingo à tarde não mais se voltou a repetir. Aquele céu, o cheiro da rua, aquelas pessoas e aqueles jogadores... nunca, nunca mais os vi.
Gostava, é óbvio que gostava. Não o fiz porque fui deixando ir, fui deixando passar, conscientemente ou não, o que é certo é que acabei por não comprar o bilhete.
Agora, não posso negar a força e marca que, as canções interpretadas por este "grupo" nos anos 90, deixaram em todos os que na altura atravessavam essa conturbada etapa, a adolescência.
Quanto a músicas preferidas, salta logo "A noite" à memória. Pela simplicidade da letra, musicalidade, e mensagem para quem descobria os encantos do sexo oposto. "ela despiu e ele a satisfaz..." o que quereriam eles dizer com isto?, até onde é que estas palavras iriam? e qual seria a importância e significado destas palavras para quem escrevia esta letra? O que é certo é que apenas muitos anos mais tarde vim a saber que a música era um original dos Sitiados...
Já "Não sou o único", faz-me lembrar um intervalo grande durante as aulas. 5º ano. Estava eu e o meu colega na disputa de mais um jogo de berlinde no campo de areia, quando ele entoa os versos "pensas que eu sou um caso isolado, não sou o único a olhar o céu".
Eu, inocente, olhei o céu...
Já tinha ouvido algures aquela música... Estavamos na primavera penso eu. Estava calor. Olhei o céu e o céu era azul claro com salpicos de núvens esfumaçadas de um branco puro. Olhei o céu novamente, e percebi então, que não era o único a olhar o céu...
A apresentadora do então consagrado "Top +" transmite claramente toda a carga da época. Ela um icone para tantos de nós na altura. O blusão de cabedal, o preto, o preto que eu queria vestir, mas que eu não tinha para usar. Era o tempo de Guns N´Roses lá fora, mas cá dentro... cá dentro era Resistência, claramente!
Juro que já não me lembrava do sabor de uma bolacha maria com doce de tomate caseiro!
Faz-me lembrar dos lanches das tardes de domingo...
Sim aqueles, em que comiamos com as mãos sujas e as unhas cheias de terra. na altura das cabanas e das aventuras, das carraças e dos jogos da macaca...
Sim, naqueles em que comiamos bolachas maria com doce de tomate.
Sinceramente, já não me recordo da última vez que os vi! Não sei o que e passará com eles, não sei por onde é que andam, não sei se actualmente a garotada sabe o que são, mas já não aparecem com a frequência que apareciam nas noites de antigamente... Qualquer dia, não passarão de uma lenda difícil de fazer crer como real, a todos aqueles que nasceram depois da era dos telemóveis...
Para além de toda a questão cívica que surge com o dia de hoje, não posso deixar de referir a minha renovada expectativa para entrar naquela que um dia foi a minha escola secundária. É lá que exerço o meu direito de voto, e não sou capaz de deixar de sentir a nostalgia relacionada com o "entrar dentro do Pavilhão C" e de olhar com saudade para as cartolinas afixadas na parede da sala, com pequenos trabalhos, que na altura me pareciam herculeanos.
Não nego igualmente o desejo de encontrar caras conhecidas, as caras que um dia encontrava nos intervalos e que em muitos casos, eram acompanhados de vontades platónicas de chegar mais perto mas que hoje, surgem com toda a naturalidade.
À saída olhei para dentro do "Pavilhão D", o Pavilhão onde ficava o Bar. Entrei, dirigi-me ao balcão e não resisti a pedir um a fatia de salame. Lembro-me que dantes juntava dinheiro durante uma semana para depois poder fazer uma extravagância. Custavam 30$00 cada uma, e sabiam pela vida! Tinham um gosto açucarado... bem carregado.
Hoje voltei a comprar, 0,95€, e o sabor, esse, felizmente não era o mesmo, e ainda bem!
Há recordações que não podem ser de maneira alguma violadas/suplantadas!!!
Agora que atravesso o corredor reparo num objecto cada vez mais decorativo cá por casa. O telefone. Lembro-me do burburinho que fazia cá dentro sempre que ele tocava, seria para mim? Lembro-me dos meus telefonemas para o Programa "Agora Escolha". Lembro-me da senhora que atendia a chamada, ela lá e eu do lado de cá. Lembro-me do quanto me sentia importante, quase como se fosse figura pública, algo mesmo ali ao lado de trabalhar na televisão. Afinal de contas eu era parte integrante na escolha da grelha de programas daquele início de tarde na RTP 2. Lembro-me das linhas cruzadas, de ficar calado à espreita de perceber que seria e do que falavam. Lembro-me da mesa em que ele apoiava, levava um calço por debaixo de uma perna para não balançar tanto, lembro-me de muita coisa e lembro-me que agora raramente o utilizo.